Novo surto de Ébola detetado no Congo. União Africana organiza vigilância transfronteiriça

Novo surto de Ébola detetado no Congo. União Africana organiza vigilância transfronteiriça

Um novo surto confirmado de Ébola em Ituri, Congo, perto do Uganda e do Sudão do Sul, já provocou pelo menos 65 mortes, havendo mais de 240 casos suspeitos. Foi convocada uma reunião dos Centros Africanos de Controlo e Prevenção de doenças para reforçar a resposta sanitária e controlar a disseminação da doença.

RTP /
Controlo de temperatura num centro de tratamento do Ébola no leste do Congo. A febre é um dos principais sintomas da doença Zohra Bensemra - Reuters

A África CDC, a Agência de Saúde Pública da União Africana, confirmou, esta sexta-feira, a ocorrência do surto, provocado pelo vírus Ébola Bundibugyo, na província de Ituri, na República Democrática do Congo. 

Registou-se ainda a morte de um homem de 59 anos e originário do Congo, num hospital da capital ugandesa, Kampala. Todos os contactos ligados ao homem que testou positivo ao Ébola foram colocados em quarentena, incluindo um de alto risco, familiar próximo da vítima. O corpo do homem foi levado para a RD Congo e o Ministério da Saúde ugandês sublinhou que o caso positivo é importado e o Uganda "ainda não confirmou um caso local".

A região de Ituri, na RDC, é remota mas próxima do Uganda e do Sudão do Sul, país que vive uma grave instabilidade política que motiva deslocações e para onde o vírus se pode deslocar através da movimentações populacionais. 

O novo surto está por isso a causar preocupação à agência de Saúde Pública da União Africana.
17º surto

Os Centros Africanos de Controlo e Prevenção de Doenças afirmaram em comunicado que vão convocar uma reunião urgente precisamente com representantes da RDC, do Uganda e do Sudão do Sul, e incluindo parceiros globais, para reforçar os esforços de vigilância, preparação e resposta transfronteiriça. Este é o 17.º surto no Congo desde que o Ébola foi identificado pela primeira vez no país, em 1976. O anterior surto mais recente, na província de Kasai, foi declarado terminado a 1 de dezembro, após três meses. De um total de 64 casos, 45 morreram e 19 recuperaram.

O Ébola causa febres hemorrágicas e é altamente contagioso e frequentemente fatal, com taxas de mortalidade a variar geralmente entre 25 por cento e 90 por cento dos casos.

O vírus é endémico nas vastas florestas tropicais do Congo propagando-se por contacto direto com fluidos corporais de pessoas infetadas, materiais contaminados ou pessoas que morreram na sequência da doença.

A vacinação é um dos métodos mais seguros de controlar um surto. Outras medidas de controlo de fluxos populacionais são apoio fundamental para conter a disseminação de casos.

O comunicado da África CDC informou que as mortes e os casos suspeitos foram relatados principalmente nas zonas de saúde de Mongwalu e Rwampara, na RDC, enquanto quatro mortes foram relatadas entre os casos confirmados em laboratório. 

Casos suspeitos foram também reportados em Bunia, a capital da província.

A agência afirmou que as descobertas iniciais sugerem a presença de uma estirpe do vírus não originária do Zaire, e que a sequenciação está em curso para melhor a caracterizar.


Jean-Jacques Muyembe, o virologista congolês que codescobriu o Ébola e que dirige o Instituto Nacional de Investigação Biomédica em Kinshasa, disse à agência Reuters que todos os 16 surtos anteriores no Congo, com exceção de um, foram causados ​​pela estirpe do Zaire.

A identificação de uma variante diferente complicará a resposta, disse, uma vez que os tratamentos e vacinas existentes foram desenvolvidos contra a estirpe do Zaire.
OMS envia auxílio
A Agência Africana de Controlo e Prevenção de Doenças (Africa CDC) manifestou preocupação com o risco de maior disseminação devido ao contexto urbano de Bunia e Rwampara, bem como com o intenso fluxo populacional e a mobilidade relacionada com a mineração nas áreas afectadas, próximas do Uganda e do Sudão do Sul. "Considerando o intenso fluxo populacional entre as áreas afetadas e os países vizinhos, a rápida coordenação regional é essencial", afirmou Jean Kaseya, diretora-geral da Africa CDC, em comunicado.

O novo surto está também a desenrolar-se no meio de uma crescente crise de segurança em Ituri, onde confrontos entre grupos de milícias rivais mataram dezenas de civis nas últimas semanas.

A violência agravou uma situação humanitária já crítica, deixando as instalações de saúde sobrecarregadas ou inoperacionais em algumas partes da província, informou a organização Médicos Sem Fronteiras no início deste mês. 

A ONG médica alertou para as condições catastróficas de higiene nos locais de deslocação, aumentando o risco de surtos de doenças. 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) tomou conhecimento dos casos suspeitos no dia 5 de maio e enviou uma equipa a Ituri para ajudar na investigação, mas as amostras recolhidas no terreno testaram inicialmente negativo, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, numa conferência de imprensa na sexta-feira.

Um laboratório em Kinshasa confirmou casos positivos na quinta-feira, e o número total de casos positivos confirmados cifrava-se sexta-feira em 13, disse Tedros.

A OMS libertou 500 mil dólares do seu fundo de contingência para emergências para apoiar a resposta, incluindo vigilância, rastreio de contactos, testes laboratoriais e cuidados clínicos, afirmou.

c/agências
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